Monthly Archives: June 2013

Razões erradas para criticar o FMI

Vale a pena recordar que desde o final de 2010 o FMI deu um contributo decisivo com uma sequência de artigos académicos para enterrar a extravagante teoria da austeridade expansionista (em Abril desse ano os ministros das Finanças Europeus chegaram a convidar para uma apresentação especial no Ecofin Alberto Alesina, o promotor da teoria)

Visto por Dentro, 24 de Junho de 2013

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Descolagem

Este blogue tem um padrinho, um padrinho dos que escolhe o nome e tudo. Foi o João Pedro Oliveira que um dia à tarde ali para o Príncipe Real baptizou a ideia então ainda muito vaga. O Perestroika nasceu nesse momento apadrinhado pela energia criativa do João que espera não defraudar.

Para que não haja lugar a desilusões, o blogue não tem grandes ambições: é um espaço de um Peres (jornalista) sobre a Troika (em Lisboa). Será alimentado por ligações às análises e opiniões e textos publicados no Negócios e no Massa Monetária, onde o Peres trabalha há uns anos. Também haverá contributos dedicados sempre que o pouco tempo o permita.

O espaço vê a luz do dia no momento em que termina a sétima avaliação da troika, mas não beneficia de qualquer inspiração divina como a que segundo Cavaco Silva, Presidente da República, terá garantido a aprovação da mais longa e ardilosa avaliação desde que FMI, Comissão Europeia e BCE aterraram em Lisboa no Verão de 2011. Fica contudo a dever alguma coisa a esse episódio como um bom exemplo da degradação económica e política em que Portugal caiu.

O Perestroika tentará contribuir para o relato dessa dolorosa, confusa e espantosa experiência que é viver numa economia pobre que se sujeitou à tutela do fazer-o-que-for-preciso-para-recuperar-a-credibilidade-dos-mercados.

Inevitavelmente, este será um espaço sobre a reestruturação (significado literal de “perestroika”) em curso em Portugal e que é, em parte importante, influenciada por uma Europa reinventada após a Perestroika que conduziu à desintegração da URSS e à unificação da Alemanha, o País que emerge duas décadas depois como o principal actor da união monetária europeia entretanto criada.

A fotografia do edifício que acolhe o ministério das Finanças alemão foi escolhida não apenas pela relevância óbvia que as decisões em Berlim ganharam para Portugal. Esta é também uma forma de sublinhar a importância de enquadrar a crise nacional na história económica europeia do século XX, uma história que o edifício na Wilhelmstrasse 97 acolheu desde os anos 30.

BCE e Portugal visto por alguns dos “bloggers” mais influentes do mundo

Há um debate a decorrer na blogosesfera sobre Portugal e o BCE. Ou melhor: sobre o que é que o BCE pode (deve) fazer pelo pequeno país da periferia. No debate estão Tyler Cowen (Marginal Revolution), Ryan Avent (Free Exchange – Economist), Karl Smith (Forbes) e Paul Krugman a fazer uma aparição no final.

Mas o que junta tão distintos “bloggers” em torno de Portugal e do BCE? A resposta está num dos maiores problemas da união monetária, o que em “economês” ganhou o nome de “fragmentação financeira da Zona Euro” ou de “travão/problema no mecanismo de transmissão da política monetária”.

Massa Monetária, 21 de Maio 2013

Quanta austeridade é precisa para baixar o défice numas décimas?

A análise da UTAO ao documento de estratégia orçamental (DEO 2013-2017) levanta uma dúvida impressionante sobre a receita orçamental que está a ser prescrita a Portugal em 2013. Este ano, o Governo propõe-se a baixar o défice orçamental em menos de 1 ponto percentual do PIB – se considerarmos a variação sem medidas extraordinárias então a redução é de apenas 0,2 pontos de PIB. No entanto, as medidas de austeridade previstas ascendem a 3,6% do PIB. Porquê?

Massa Monetária, 28 Maio

O mito das reformas estruturais na Irlanda

Dublin_Soleir_Flickr_CC

Um dos economistas mais influentes da Irlanda estava há uns tempos sentado num daqueles jantares de malta financeira que juntam os economistas das várias instituições, dos governos, da troika e dos bancos centrais, e ao seu lado estava um homem do FMI:

Sr. FMI: Que bom que a Irlanda esteja a ter um desempenho tão notável, depois de tantas reformas estruturais difíceis e  com sucesso. Parabéns!

Sr. Irlanda: A sério, obrigado! Mas já agora, diga-me uma reforma que tenhamos feito?

Sr. FMI: Bom, não conheço bem os detalhes…

Sr. Irlanda: Não acha que se tivéssemos feito assim tantas reformas se lembraria de uma que fosse?

Sr. FMI:

O Sr. FMI não conseguiu referir uma.

A história foi-me contada em Dublin por um dos economistas irlandeses mais influentes do País e uma voz reconhecida entre banqueiros centrais. A questão, diz ele, é que a Irlanda não fez especiais reformas. Na verdade a Irlanda já gozava da flexibilidade que está ao centro do modelo de reformas da troika. Mais que a Alemanha, por exemplo.

Os elogios, continuou, são assim uma forma de pressionar os restantes países a copiar o modelo liberal que já governava a Irlanda muito antes da troika chegar. (Não que tenha conseguido especiais resultados nesta fase – digo eu).

Desestabilizadores automáticos

Perante isto, há um toque de ironia trágica nos elogios de Olli Rehn ao sofrimento nacional para os quais pediu emprestadas palavras a Fernando Pessoa: “há barcos para muitos portos, mas nenhum para a vida não doer”, disse. Resta saber se o comissário sabe que estas foram escritas “no fundo de uma depressão sem fundo”, “num daqueles dias em que nunca tive futuro”.

Visto por Dentro, 18 de Março de 2012

Confiança e credibilidade

A assumpção pelos líderes europeus de que os seus concidadãos não confiam no caminho que está a ser trilhado pode marcar uma viragem no caminho que vimos tomando. Para isso é importante que os actuais responsáveis admitam os erros e a falta de confiança que deles resulta. Mas tão ou mais importante é a capacidade das vozes alternativas assumirem um discurso consistente e consequente. Por enquanto, pelo menos por cá, temos visto muito pouco.

Visto por Dentro, 03 de Junho de 2013