Quem diria: Portas e Mário Nogueira juntos

A direita ficou bastante irritada com o acordo entre professores e Governo na semana passada. Têm razão. João Cortez no Insurgente apresenta bem o resultado da negociação entre Nuno Crato e Mário Nogueira, e indignação que daí nasce entre os críticos das pretensões dos professores.

Não confio na lógica da aplicação radical de reformas, uma tentação fácil em tempos de crise, mas muitas vezes precipitada. E desconfio ainda mais quando, como tem acontecido em Portugal, se trata de uma radicalidade assimétrica – na medida em que a acção governativa é mais centrada na redução da máquina pública pela sua desvalorização social, do que na sua afirmação perante lóbis, muito deles com domínio sobre os Governos.

Mas para os defensores dos planos gizados entre o Governo e a troika o desconforto com a vitória dos professores é totalmente justificado: a capacidade do Executivo levar adiante, de forma credível e coerente, os planos de redução do número de trabalhadores e de poupanças significativas na Educação, como noutras áreas, ficou muito limitada.

 O adiamento para 2015 (ano de eleições legislativas) da mobilidade especial – o mecanismo central do Governo para redução de pessoal e de despesas com pessoal – é o resultado com impacto mais relevante. Naturalmente, outras corporações contestarão qualquer aplicação no seu caso em 2013 ou 2014.

 Há contudo uma outra cedência que merece nota por estar entre o cómico e o trágico: o aumento de 5 horas, para 40 horas semanais, no horário de trabalho dos professores avançará… mas será conseguido através de um aumento do trabalho em casa. Parece piada, mas não é. É apenas uma maquilhagem reformadora que descredibiliza Governo e sindicatos.

E é por estas duas vitórias que Mário Nogueira se junta a Paulo Portas: são eles os as dois principais actores no enterro da “reforma do Estado” proposta pelo Governo e troika.

É que se os professores fizeram greves durante umas semanas até à sua vitória, Paulo Portas está em greve em relação à reforma do Estado pelo menos desde Fevereiro, quando ficou de apresentar o plano do Governo. Sete meses depois ainda ninguém viu nada para além de apresentações orais de linhas gerais – e provavelmente não verá.

Como Mário Nogueira, Portas fragiliza o Governo com esta sua greve e dificulta de forma a execução do planos de cortes. Mas convenhamos, um ministro em greve é bem mais cómico do qualquer vitória dos sindicatos.

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One thought on “Quem diria: Portas e Mário Nogueira juntos

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