Monthly Archives: October 2013

O intrigante défice comercial

défice externo

Fonte: AMECO

Na sequência de “posts” anteriores sobre as causas dos défices externo e comercial, Luciano Amaral no Crise Crónica oferece mais material para a reflexão, salientando a apreciação cambial real que antecipou a adesão ao euro como uma variável importante a considerar no debate (Um artigo do FMI de 1997 partilhado pelo Luciano Amaral evidencia o ajustamento cambial e de inflação de Portugal, Itália, Grécia e Irlanda). Em discussões paralelas este ponto foi também evidenciado pelo Luís Aguiar Conraria, pelo Pedro Romano (que contribui para o tema num post recente) e pelo Nuno Teles.

Uma das dimensões mais intrigantes na análise dos impactos da valorização cambial é a evolução das balanças comercial e de rendimentos desde meados dos anos 80. Admitindo que Portugal perdeu competitividade (por apreciação da taxa de câmbio real) após a adesão à UE e especialmente com o ajustamento imposto por Maastricht, como se explica a relativa constância do défice comercial (bens e serviços) desde meados dos anos 80 e, ao mesmo tempo, um agravamento da balança corrente (essencialmente via das balança de rendimentos e transferências), o qual foi acentuado desde meados dos anos 90.

Dito de outra forma, se o euro (e o processo que conduziu até ele) é uma variável central nas dinâmicas do ajustamento externo português, como é que afectou tanto os rendimentos e tão pouco o desempenho comercial?

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Yellen e Draghi e a política das palavras

“Desde que me tornei banqueiro central aprendi a balbuciar com grande incoerência. Se lhe pareci perfeitamente claro, então não deve ter percebido o que eu disse”.

Alan Greenspan, ex-presidente da Fed aos jornalistas, em 1987

Janet Yellen, nomeada na semana passada por Barack Obama para substituir Ben Bernanke na Fed, está entre as pessoas que mais influenciou esta transformação. Enquanto vice-presidente da Fed, promoveu uma comunicação mais activa e transparente, incluindo a assunção de objectivos e metas claros.

A sua subida ao cargo máximo da política monetária num mundo dominado por homens é, por si, um feito histórico e que lhe exigirá habilidade. Mas é a revolução na comunicação que provavelmente lhe dará mais dores de cabeça, num mundo desconfiado, onde as certezas e os consensos escasseiam. Os riscos para ela, como para Mario Draghi deste lado, são grandes e novos. É que ninguém sabe qual é o verdadeiro poder da palavra de um banqueiro central.

Visto por Dentro, Jornal de Negócios, 14 de Outubro 2013

A diferença que uma palavra faz… imagine-se uma narrativa inteira

Luciano Amaral, no atento e recomendável Crise Crónica, aponta, e bem, um erro no meu penúltimo artigo de opinião publicado no Negócios sobre a importância das narrativas, o qual se partia de dois artigos académicos publicados no FMI e no BIS.

Hoje é apresentado neste artigo de Rui Peres Jorge, de resto bem intencionado, no Jornal de Negócios: “Joong Kang e Jay Shambaugh, defendem que o défice externo português após a adesão ao euro não resulta da falta de competitividade das exportações. Os economistas sublinham que o saldo da balança comercial portuguesa esteve relativamente equilibrado desde 2000, e que o traço distintivo do desequilíbrio português foi uma queda acentuada do saldo das transferências com o exterior e um aumento dos rendimentos pagos ao exterior”. Não é isso que Kang e Shambaugh dizem, embora o apresentem de maneira suficientemente ambígua para enganar incautos. Eles não dizem que “o saldo da balança comercial esteve relativamente equilibrado”. O que dizem é que melhorou. Isto é, em vez de ser de 12% do PIB ao ano passou para 10%. Melhorou, mas continua profundamente desequilibrado (10% em cada ano…)

Embora exagere nos valores (o saldo comercial, que inclui bens e serviços, foi de -7,2% do PIB em 2010 e entrou em terreno positivo em 2012), Luciano tem toda a razão. De facto, onde se lê “relativamente equilibrado”, dever-se-ia ler “relativamente estável”.

Há um erro terminológico e a diferença é naturalmente relevante – até porque poucos serão os que recordam um saldo da balança comercial equilibrado ou excedentário em décadas passadas, já que tal coisa não se via em Portugal desde a segunda guerra mundial.

O reparo, escreve Luciano, pretende evitar que “pegue o erro” através do qual se escamoteia que “o problema da economia portuguesa é um problema de desequilíbrio externo” e que se iluda uma inevitabilidade: “Ou esse desequilíbrio é pago com exportações, ou então é pago de outra forma (transferências unilaterais, como as remessas, ou investimento)”.

Na verdade, o problema no curto prazo pode ‘resolver-se’ de outra forma, como bem perceberam os arquitectos do programa de ajustamento: através de uma redução drástica dos rendimentos, do consumo e das importações que eliminem a procura e o défice.

Mas para este debate este é um aspecto lateral. Mais importante é o facto de a nota de Luciano Amaral, de resto também ela bem intencionada, desvalorizar o ponto central do contributo de Joong Kang e Jay Shambaugh, o que me dá a oportunidade de regressar a ele.

Segundo a análise, a persistência do défice comercial nacional não só antecede o euro, como não se agravou com a participação na moeda única – permanecendo relativamente estável e em linha com o passado. O degradação do défice externo resultou antes de uma redução abrupta das remessas de emigrantes e de um progressivo aumento do rendimentos pagos ao exterior em troca de endividamento.

Daqui decorre, sustentam os autores, que o agravamento do défice externo não traduz uma perda de competitividade das exportações, ou mais correctamente do sector exportador, ou como prefere Luciano, da economia como um todo. É antes o resultado de uma alteração estrutural nas relações financeiras com o exterior, em parte alimentada e permitida pelo novo mundo de dívida fácil que se abriu com a moeda única.

Não está em causa a necessidade de ganhar competitividade, nem as virtudes de reequilibrar a balança externa pelo crescimento das exportações que com certeza todos desejamos. Mas quando economistas como Kang e Shambaugh sublinham que não há evidência de que o factor preço/salário penalizou o desempenho comercial, isso merece ser notado. O défice comercial existia e existiu, com euro e sem euro. O que mudou foi o comportamento da balança de rendimentos e transferências correntes (e defendem alguns, em parte pela própria participação na moeda única)

Este ponto é fundamental. É que a narrativa dominante, no Governo e na troika, é a de que a compressão salarial permitirá recuperar a competitividade perdida  com a moeda única (que na verdade não se perdeu por esta via), como se pudéssemos pagar em cortes salariais todas as ineficiências e atrasos desta nossa economia. Essa narrativa, como é cada vez mais evidente, carece de melhor fundamentação.

Se uma palavra errada fez tanta diferença, imagine-se agora uma narrativa inteira. E essa sim já pegou.

(Sobre outras narrativas sobre défice externo, fica o convite para um contributo recente no Massa Monetária)

A vergonha da reestruturação da dívida

Nos últimos dois anos os países da periferia aplicaram receitas de austeridade que nenhum dos Governos credores aceitaria em sua casa, especialmente tendo em conta os seus resultados. A austeridade provou-se mal calibrada e insuficiente como instrumento de contenção da crise, como atesta a escalda do desemprego para níveis inaceitáveis e que vão dos 14% da Irlanda aos mais de 25% na Grécia. Estes valores devem desassossegar-nos para além de palavras e estratégias de médio e longo prazo. Não esgotar todos os instrumentos possíveis para acelerar uma inversão da situação só nos pode envergonhar enquanto europeus

Visto por Dentro, Jornal de Negócios, 30 de Setembro, 2012