Monthly Archives: January 2014

Cartas de amor

Das arrumações de 2013 saltaram dois documentos que marcam a história recente da troika e das correspondências em geral, e que vale a pena arquivar por, entre outras qualidades, confirmarem que as cartas de amor (e não só) têm de ser ridículas.

A primeira carta é de Olli Rehn, o maestro da política financeira europeia, que em Fevereiro escreveu aos ministros das Finanças em tom íntimo criticando um debate central para a política económica actual: afinal quanto é que a austeridade tira ao crescimento. Um excerto:

Gostava de deixar algumas notas sobre um debate que não tem ajudado e que arrisca afectar a confiança que construímos com tanto esforço nos últimos anos em numerosas reuniões noite dentro. Refiro-me ao debate sobre os multiplicadores orçamentais, isto é, ao impacto marginal que uma mudança na política orçamental tem no crescimento económico.

Carta de Olli Rehn, Fevereiro de 2013

A segunda é a inusitada carta de demissão de Vítor Gaspar tornada pública pelos serviços do ministério das Finanças no início de Julho. Uma missiva dirigida ao primeiro ministro Passos Coelho (a quem de resto agradece o apoio dado) mas com Paulo Portas como principal destinatário sombra – de tal forma que líder do CDS se demitiu no dia seguinte. Aqui ficam as linhas finais.

Os riscos e desafios dos próximos tempos são enormes. Exigem a coesão do Governo. É minha firme convicção que a minha saída contribuirá para reforçar a sua liderança e a coesão da equipa governativa.

Pela minha parte, resta-me agradecer o enorme e inestimável apoio que me prestou nestes dois anos de excelente cooperação.

Vítor Gaspar, Julho de 2013

Como diria Álvaro de Campos, “as cartas de amor, se há amor, têm de ser ridículas”.

 

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Ainda opiniões de 2013

O Perestroika foi o sacrificado por um final de ano intenso e um arranque de 2014 em férias. Os Vistos por Dentro que não chegaram cá:

Três murros no estômago, 23 de Dezembro

As chamadas reformas estruturais não estão a dar os resultados pretendidos e em alguns casos não são sequer reformas, mas apenas atalhos para cortes da despesa. Quem o diz são o Tribunal de Contas, o Tribunal Constitucional e a troika que em análises publicadas na semana passada infligiram três murros no estômago do Governo.

O maior entrave a qualquer transformação foi a condução macroeconómica do programa – definida na essência pela troika – que impôs um nível de austeridade tal que paralisou a economia. A troika bem poderá empurrar a responsabilidade para o Governo, mas especialmente nesta área é impossível criticar sem se atingir a si própria e à credibilidade das suas políticas.

O cautelar e a sina dos play-offs, 25 de Novembro

Há três factores que surgem como decisivos para o sucesso português, o principal dos quais está fora de controlo: o futuro próximo nacional está intimamente ligado à evolução da economia europeia e portuguesa no primeiro semestre. Bons sinais no crescimento e no emprego, acordo na união bancária, optimismo nos mercados de dívida europeus e emissões bem sucedidas pela Irlanda serão meio caminho para o sucesso das emissões de dívida que Portugal terá de fazer.

Comentário: o arranque de 2014 evidencia a importância de um outro factor – o reequilíbrio de fluxos de capital entre economias avançadas e emergentes marcará a vida dos periféricos da Zona Euro.

A diabolização do segundo resgate, 11 de Novembro

É hoje claro que  um segundo resgate, programa cautelar ou até a inexistência de qualquer programa de assistência, como aspira a Irlanda, terão poucos impactos na  alteração da condução da política orçamental. O que comandará o ministério das Finanças será o chamado pacto orçamental europeu que, convém sublinhar, foi acolhido pelo PSD e CDS, mas também, e não é demais lembrar, pelo PS – que tem ele próprio andado mais entretido na diabolização do programa cautelar do que na apresentação de linha convincente de acção.

O que é feito do Orçamento mais difícil de sempre? 28 de Outubro

O Governo apresentou o orçamento mais violento de muitos anos gerado na esperança de um regresso aos mercados em 2014 com o apoio da troika. Poucos contestarão o objectivo, mas o documento em debate assenta numa estratégia desadequada que impede consensos e desafia mais uma vez os limites constitucionais.

Comentário: o cautelar parece estar próximo, mas um chumbo do constitucional aos cortes salariais inscritos no OE 2014 também – especialmente depois do chumbo pelo TC à convergência das pensões anunciada em Dezembro e que ditou cortes significativos nas pensões da CGA – uma decisão que ditou o primeiro rectificativo de 2014 logo nos primeiros dias do ano.