Monthly Archives: March 2014

Por que devemos debater reestruturações

Comecemos por alguns dados:

• A dívida pública portuguesa atingiu os 130% do PIB no final de 2013, o que coloca Portugal como o sexto país do mundo com maior peso de dívida (à frente estão Japão, Grécia, Líbano, Jamaica e Itália). A média da Zona Euro está nos 90%, já superior aos máximos registados no pós-Segunda Grande Guerra;

• A factura de juros da actual dívida ronda os 4,5% do PIB ao ano. Para cumprir o compromisso europeu mais básico, Portugal terá de caminhar para um excedente orçamental antes de juros na casa dos 4% do PIB nos próximos anos, e de 3% na década seguinte, valores nunca registados no Portugal democrático e difíceis de encontrar na Europa nas últimas décadas. Acresce que o envelhecimento populacional pressiona cada vez mais as contas e as perspectivas de crescimento não são animadoras;

• Todos, mesmo a troika, concordam que para a dívida pública ser sustentável, será central que a economia cresça próximo dos 4% em termos nominais (2% em termos reais), num momento em que decorre todo um debate internacional sobre a possibilidade de termos entrado numa fase de baixo crescimento permanente nas economias avançadas;

• Na frente privada, as empresas e as famílias devem cerca de 280% do PIB, do qual 165% está por conta das empresas, que ocupam o quarto lugar, no ranking da Zona Euro. Para manter o “stock” de dívida privada constante, seria necessário que o sector privado crescesse quase três vezes mais do que a taxa de juro, num contexto de bancos com prejuízos e custos de financiamento especialmente elevados;

• Finalmente, entre 1970 e 2008, mais de 80% dos casos de incumprimento em países de rendimento médio aconteceram com níveis de dívida externa (privada e pública) inferiores a 80% do PIB. Entre 1970 e 2000, a média da dívida externa nas economias avançadas foi de 55% do PIB. No final do ano passado, Portugal devia ao exterior mais de 250% do PIB – quase cinco vezes mais.

Visto por dentro, 17 de Março 2014

Rangel e Assis têm muito que fazer

Na opinião desta quinzena no Negócios defendo a urgência de os dois maiores partidos apresentarem nas eleições europeias reformas ao funcionamento da UE que permitam aos portugueses perceber qual vai ser afinal o seu papel numa União Europeia que destruiu muito do seu capital político com a crise.

Nestes quatro anos de crise aprendemos muita coisa sobre a Europa e as suas instituições. Aprendemos que Bruxelas que ninguém elege decide muito e vai decidir ainda mais, com ou sem programa cautelar; aprendemos que a moeda única e a harmonização financeira liberal não são o instrumento de convergência política e económica apresentado há uma década, antes pelo contrário; aprendemos que na UE quando as coisas ficam difíceis são os governos do Norte que mandam, comandados pelo seu eleitorado; aprendemos que a solidariedade europeia existe, mas acaba onde começa o orçamento de cada país; aprendemos que 15% de desemprego em Portugal são politicamente muito diferentes dos mesmos 15% na Alemanha; aprendemos, entre muitas outras coisas, que em Bruxelas se é demasiadas vezes forçado a trocar o necessário pelo possível e chamar-lhe ainda assim um sucesso perante a incredulidade dos cidadãos.

Visto por dentro, 03 Março, 2014