Austeridade a mais, recessão a mais (novas contas)

A austeridade foi excessiva tanto em Portugal como na zona euro. Estes são dois dos “10 erros da troika em Portugal”, sendo impressionante a forma como, a partir de 2011, a austeridade ganhou lastro por todo o Continente apesar das fragilidades evidentes da recuperação.

O fascínio por políticas de contenção orçamental foi tal que, mesmo países que não precisavam de tais políticas (a Alemanha por exemplo beneficiou de custos de financiamento muito baixos e tem falta de investimento) embarcam e lideraram a deriva de austeridade. Não é fácil saber exactamente quanto é que estas políticas custaram à Europa, e a Portugal em particular.

Mas dois trabalhos recentes, um da Comissão Europeia que já cito no livro (Fiscal Consolidations and spillovers in the Euro area periphery) e outro mais fresco do Banco de Portugal (Relatório Anual – A Economia Portuguesa) dão-nos uma ideia do que se passou e dos possíveis custos da austeridade simultânea na Europa.

No caso do trabalho da Comissão, Jan in’t Veld estima que:

        1. A recessão nacional de 6% acumulada desde 2011 poderia ter-se ficado pelos 4,5% (menos um terço) caso as políticas de austeridade tivessem sido aplicadas apenas em Portugal – ou se os países do Norte tivessem compensado a austeridade nos restantes países do Sul.
        2. O PIB da zona euro no final de 2013 está cerca de 4,5% abaixo do que estaria caso não tivesse sido implementada uma estratégia de austeridade simultânea por toda a região.

Já o Banco de Portugal estimou o que teria ocorrido na economia nacional caso a procura externa tivesse aumentado  como previsto no início do programa de ajustamento. Ou seja, se a procura por bens nacionais tivesse crescido 20% entre 2011 e 2013, e não apenas os 5,5% efectivos, a queda do PIB poderia ter ficado pela metade (3% em vez dos 6% reais):

enquanto no início do Programa se projetava um crescimento real acumulado da procura externa de cerca de 20 por cento no triénio 2011-13, o crescimento observado foi de apenas 5.5 por cento. Esta evolução teve implicações muito significativas nas projeções macroeconómicas (ver Quadro 5.1.1). De facto, assumindo a materialização da procura externa considerada inicialmente no Programa, bem como dos ganhos de quota de mercado observados, o modelo macroeconométrico habitualmente utilizado nas projeções do Banco de Portugal sugere que a queda acumulada do PIB nestes três anos seria mitigada em cerca de 3 pontos percentuais e a queda do emprego em cerca de 1.2 pontos percentuais

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É possível que as previsões iniciais da troika e do Governo tenham sido excessivamente optimistas e é claro que não foi apenas a austeridade excessiva na Europa que afectou a economia europeia ou que penalizou as exportações nacionais. Portugal não vende apenas para a Europa (embora aí se concentre mais de dois terços do mercado) e outros elementos, como o risco de implosão da Zona Euro e a fragmentação financeira também minaram a recuperação.

Mas em todo o caso, a concentração europeia na austeridade ocupa um lugar central na explicação da fragilidade europeia e nacional, como evidenciam estas estimativas. Além de que a aposta na austeridade serviu a narrativa de que os problemas europeus eram essencialmente orçamentais, criando uma cortina de fumo sobre a urgência de atacar deficiências essenciais na arquitectura da zona euro, como um papel mais activo do BCE ou a coordenação de políticas entre Norte e Sul.

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One thought on “Austeridade a mais, recessão a mais (novas contas)

  1. pedro romano

    Provavelmente, o estudo da CE subestima bastante o impacto da austeridade. É que o modelo utilizado, se bem o percebo, assume que os choques se dissipam completamente após dois ou três anos (esta é uma propriedade típica desta classe de modelos: por definição, o PIB efectivo converge para o PIB potencial a médio prazo).

    Mas como há razões para crer que os choques são persistentes – e no caso de Portugal isso é óbvio, basta olhar para emigração, que reduz a força de trabalho, e para o stock de capital líquido -, então o impacto da consolidação não será revertido, ao contrário do que o modelo assume. Aliás, se tentarmos aplicar estes resultados à economia grega, chegamos a valores bastante aberrantes relativamente àquilo que seria o cenário contrafactual de uma Grécia sem austeridade.

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