Quem regula a KPMG?

Num artigo publicado esta semana Ricardo Reis desvaloriza as críticas a Carlos Costa no caso BES, argumentando que ao governador do Banco de Portugal compete acima de tudo defender os depositantes e não os accionistas. E foi isso que Carlos Costa fez, escreve. O economista entende que os investidores fariam melhor em apontar baterias à KPMG e à CMVM:

Exigir responsabilidades ao governador do Banco de Portugal pelos investimentos dos acionistas é como culpar a ANACOM pelo péssimo investimento da PT no GES. O papel do regulador das telecomunicações é cuidar dos interesses dos consumidores, não dos acionistas. Culpar a ERC pelos prejuízos dos jornais é igualmente desapropriado e despropositado.

Quem protege os acionistas é a CMVM. É nesta direção que os investidores devem aplicar as suas críticas. Mais apropriado e mais frutuoso seria concentrarem-se no papel dos auditores, a KPMG, que tinha responsabilidade por certificar que as contas do universo Espírito Santo estavam correctas

Não seria tão condescendente com o Banco de Portugal, nomeadamente com o tempo que demorou a reagir aos problemas no BES ou com a informação errada que prestou a todos, incluindo depositantes. Mas sem dúvida que na história deste desastre o papel da auditoria precisa de ser melhor escrutinado. Poder-se-ia por exemplo começar por perceber o que levou a CMVM  a aceitar o prolongamento por mais que os 8 anos legalmente previstos do papel da KPMG como Auditor Externo/Revisor Oficial de Contas (AE/ROC)) do BES. Ler os argumentos apresentados pela Comissão de Auditoria do BES em 2012 quando solicitou a continuação da KPMG aproxima-se hoje a um argumento de uma história trágico-cómica:

a prestação de tais serviços [pela KPMG] geram inequivocamente vantagens para a melhoria qualitativa da fiscalização do Grupo BES, tais como:

+ Aumento dos conhecimentos do AE/ROC sobre os riscos operacionais específicos do negócio do Grupo BES

+ Maior especialização do AE/ROC em entidades do sector financeiro;

+ Mitigação dos riscos profissionais sempre associados à função de auditoria; e

+ Aprofundamento das competências da Comissão de Auditoria no que respeita ao seu papel de monitorização e avaliação dos serviços prestados pelo AE/ROC ao Grupo BES.

E ainda, o facto da KPMG conhecer como ninguém o Grupo BES:

a manutenção do profundo conhecimento acumulado pela KPMG sobre as operações e riscos do  Grupo BES, tornando assim a auditoria mais eficaz e produtiva, com reflexos positivos na respectiva relação custo/benefício, o que na presente conjuntura se  considera particularmente relevante;

E também o facto dda KPMG auditar a ESFG, que detinha o BES:

o actual mandato da KPMG Audit, Luxembourg, como auditor externo da Espírito Santo Financial Group, S.A. (ESFG), empresa-mãe do grupo económico em que se integra o BES tanto para efeitos de consolidação de contas como de supervisão do Banco de Portugal, termina apenas quando da realização da Assembleia Geral de Accionistas daquela sociedade em 2014, pelo que a mudança de AE/ROC do BES em 2012 iria gerar significativos custos adicionais da auditoria das contas consolidadas do Grupo ESFG.

Com tantas vantagens e conhecimentos sobre o BES e o sector é com alguma perplexidade que se conclui agora que a KPMG acabou por ver tão pouco.

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